BIOÉTICA SEGUNDO A TEORIA DE CIBERNÉTICA SOCIAL
W. De Grégori – teorizador de Cibernética Social para ou Proporcionalismo
INTRODUÇÃO
Por que esse interesse tão agudo e repentino por Bioética? Por que essa internacionalização veloz e a existência de tantas sociedades e comissões de estudos de Bioética, com intermináveis declarações de direitos, compromissos, com mais e mais revistas e congressos ( Enciclopédia de Bioética, Os Princípios de Bioética e mais de 250 títulos de revistas especializadas em todo o mundo) ? É apenas uma neurose generalizada frente à morte anunciada da infra-estrutura do ecossistema planetário, ou uma hipócrita penitência verbal – nunca factual - pelos desmandos da espécie humana? Ou será algo sério para restaurar a co-responsabilidade na co-evolução da vida freando a imoderação da ditadura biotecnológica da política e da economia?
O conceito híbrido “Bioética” parece sugerir (Prieto Molano, 2003) segundo seus próceres, uma aproximação entre a investigação e ação amoral das ciências mais exatas (físico-química, biologia e biotecnologia) e os ideais humanísticos “éticos” das ciências sociais e humanas (filosofia, religiões, sociologia, economia, direito, psicologia, pedagogia, antropologia, política etc.).
Há três equívocos nos pressupostos dessa nova arremetida “ética”.
O primeiro radica no uso do paradigma baconiano-cartesiano monádico que fragmenta o conhecimento em disciplinas e cria um apartheid entre elas, notadamente a muralha chinesa que se interpõe entre as ditas ciências exatas e as sociais e humanas. Para encobrir isso e disfarçar a impotência para superar tal aparheid, alimenta-se há 50 anos um vão discurso sobre inter, multi, trans ou pluridisciplinaridade, que se complementa com um chamado à formação de equipes interdisciplinares para tratar os temas de Bioética. Pretende-se, ademais, ignorar que existe uma imposição pan-geneticista, ou da “genetização” do humano com seu disfarçado determinismo e seu não menos disfarçada biotecnologia de criar o “super-homem” ou o pós-homem com manipulações eugenéticas, lobotomias e genocídios, já ensaiadas por norte-americanos e europeus (celebrizadas com Hitler) e que continuam hoje em dia com os processos transgênicos e de clonagem de seres completos ou de algumas de suas partes. Trata-se de fundamentalistas das ciências biológicas em cumplicidade com fundamentalistas político-econômicos. Falta compreender que a co-evolução paira em níveis neurológicos e culturais e que a biotecnologia só atinge a parte somática ou animal, melhorando a carcaça, produzindo mais carne e menos gordura, tornando o transgênico mais resistente a algumas enfermidades por algum tempo etc. Isto faz parte de um velho debate entre monádicos: ou natureza, ou cultura (uma coisa ou outra), em lugar de “natureza e cultura” e de procurar entender como se integram e complementam.
O segundo equívoco é pretender que o problema da Ética geral e da Bioética se resolva pelo diálogo entre as ciências mais exatas e as humanidades. Mais que um equívoco, isso é uma hipocrisia ou uma artimanha para manter oculto o sujeito social – o causador social maior. A solução do problema não vem de pronunciamentos de distintas e multitudinárias correntes de pensamento, nem de bombásticas declarações de direitos humanos teóricos, ou do código de Nüremberg, ou da Declaração de Helsinque, ou do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, ou do Convênio dos Direitos Humanos e da Biomedicina do Conselho da Europa, ou da Declaração Universal de Bioética, Genética e Direitos Humanos da UNESCO de 1997 e outras. O problema brota dos subgrupos econômicos (sujeito social oculto) que impõem seus interesses, e de seus acólitos políticos que os ratificam com a conveniente legislação. Para uma efetiva solução haveria que desmascarar o sujeito social (econômico) oculto e os subgrupos políticos que são seus cúmplices no holocausto anunciado do planeta.
O terceiro equívoco é querer abordar um tema como Ética/Bioética, reconhecidamente multifatorial ou pluridisciplinar, sem um referencial ou “mapa” que identifique e relacione esses fatores e disciplinas, um problema que vamos tratar sob o título de quadro referencial ou, abreviadamente, referenciais. Vira discurso automultiplicativo.
Por isso, antes de qualquer discussão, é preciso abordar a questão dos paradigmas e referenciais. A isso nos dedicaremos, mais que a discutir normas reguladoras sobre o nascer, viver/conviver e morrer.
1. BASE MONÁDICA, DIÁDICA, TRIÁDICA DOS PARADIGMAS
O marco zero para qualquer elucidação sobre paradigmas e referenciais é estabelecer se nossos cérebros perceptores, interpretadores e re-inventores da realidade o ffazem tomando os elementos separados um a um, ou tomando os elementos relacionados em dois pólos contraditórios, ou relacionados em tríades, tri-unidades ou “ triplets ”. O mesmo se aplica ao entendimento do cérebro como monobloco, como dois blocos (hemisférios) ou como um sistema tri-uno, tri-unitário ou triádico (De Gregori, 2000) .

Ilustração 1. Monádico, Diádico, Triádico
Bacon e Descartes propuseram o método analítico de decomposição, de desmontagem do objeto de estudo buscando unidades sempre menores até encontrar o “tijolo” fundamental do universo – é o método monádico, unitário. Seguindo por essa via o conhecimento se irá subdividindo em cada vez mais especialidades e sub-especialidades ou formando híbridos (Bioética), não obstante o discurso de interdisciplinaridade, tendo que agüentar, ainda, a chata discussão sobre quem é a “rainha” (única) das ciências. Adam Smith ratificou o mesmo método de enfoque por unidades na indústria e no mercado, o que se pode resumir em “cada qual por si e o mercado para todos”, secundado pelo monádico Charles Darwin que se saiu com o “triunfo do (uno) mais adaptável”, tendo que agüentar os que justificam seu imperialismo com essas mistificações. Antes, as religiões propuseram o monoteísmo que é o mesmo principio monádico do qual se deriva que há um único Deus (o de seus “auto-elegidos”) tendo nós que agüentar o ridículo e a violência da “única religião divina”. No custa nada ver que quem propõe e defende o paradigma monádico é o grupo dominante e aproveitador de turno, operando astuciosamente como sujeito oculto, usando disfarces como – as leis da natureza, a mecânica celeste, res cogitans e res extensa, alma e corpo, vontade de Deus, mercado, a vontade geral, as circunstâncias, o mercado, o destino etc.
Baseados no diádico Hegel que contestava os positivistas ou monádicos Bacon-Descartes, K. Marx e F. Engels postulavam que a realidade vem atada em pares opositivos ou em contradição de interesses, como: Estado e sociedade, amo e servo, patrão e empregado, capitalista e braçal, opressor e oprimido, tese e antítese - e que a luta entre esses dois pólos era a força que movia a evolução. Ainda que sem muita claridade, os diádicos começaram a reformular o conhecimento ( Dialética da Natureza; O Capital etc.) e a propor um tipo de sociedade que superasse a organização mundial imposta pelo império britânico com o fundamento monádico de Adam Smith e de Charles Darwin. O socialismo foi uma tentativa para implementar uma sociedade fundada sobre o paradigma diádico em substituição à sociedade anglo-americana de paradigma monádico. A tentativa fracassou por insuficiência.
O paradigma triúno ou triádico é algo emergente, como as teorias do caos (Gleick, 1989) e da complexidade (Morin, 1990) que são teorias sistêmicas que querem ir além do monadismo cartesiano-darwiniano e da dialética marxista. Mas não basta ser sistêmico e pluralista: é imperioso estabelecer o número mínimo de elementos a que se pode reduzir o composto sistêmico e a forma de relacionamento entre as partes. Isso começou a ficar mais claro com as demonstrações do físico atômico Murray Gel-Mann (1994) que afirma que a energia é sempre um agregado de três partículas (quarks) que formam distintas entidades segundo a posição rotativa que ocupem, indicando que esse é o principio da auto-organização e complexização de tudo. Para caracterizar as três partículas ou quarks como inseparáveis, interdependentes, e inexistentes sem o recíproco apoio (autopoiesis), chamou-as “triplets” (tri-gêmeas ou tri-siamesas).
Se aceitarmos a natureza triúna ou tri-unitária da energia, estaremos aceitando que esse é o principio da auto-organização e da expansão da energia em sistemas de crescente complexidade e leis de operação.

Ilustração 2. Evolução Tri-unitária em Rede.
Como o paradigma monádico no se apercebeu da tri-unidade recorrente ou fractal, teve que inventar uma enormidade de nomes para cada uno de seus três lados. Aqui, vamos dar a cada lado de um composto triádico um denominador comum porque, em essência, só existe um e universal jogo triúno, em escalas variáveis (De Gregori, 1984). As três posições do campo de jogo e os três subgrupos de atores são:

Ilustração 3. O Universal Jogo Tri-uno.
O jogador n o 1 está na posição OFICIAL. Diz-se “oficial” porque é o competidor que tem o controle maior do campo de jogo, é superior aos outros dois jogadores e tem o controle da maioria dos bens de sobrevivência, reprodução, ciência, informação massiva e coerção, e quer sempre mais (a esse “querer sempre mais” se diz maximocracia ). É o poder econômico submetendo o poder político e tudo. Ele se orienta principalmente pelo cérebro central que é o cérebro pragmático, imediatista e violento, sem compaixão. Trata de suprimir o subgrupo antioficial para poder extorquir o máximo do oscilante e a todos. Há subgrupos oficiais desde a microestrutura familiar, escolar, a mesoestrutura empresarial, até a macroestrutura nacional e transnacional compondo a rede do oficialismo. O oficialismo fica quase sempre impune porque se sobrepõe às leis, aos protocolos, às declarações de direitos, sem importar-se com protestos de ecologistas, de pobres e de ninguém. A Bioética, a ecologia, os direitos das gerações futuras não lhe importam nada: importam seus interesses econômicos. Seus ideólogos defendem o oficialismo com velhas e imorais máximas como “vícios privados, virtudes públicas” ou “a mão invisível do mercado equilibra tudo” etc.
O jogador número 2 está na posição ANTIOFICIAL. Diz-se “antioficial” porque é o competidor que se opõe ao avanço do subgrupo oficial, porque quer derrotá-lo e tomar o lugar dele para ter uma fatia maior dos bens de sobrevivência, reprodução, ciência, informação massiva e coação, movido, ele também, por suas aspirações maximocráticas. Ele se apóia principalmente no cérebro esquerdo crítico, analítico e é dado a solucionar os problemas práticos com manifestos, declarações e leis. Quando ainda está na oposição, discursa a favor da Ética e Bioética, proclama a urgência de mudanças, e se declara disposto a morrer pela verdade e a justiça em favor dos pobres, como disfarce de seu interesse em chegar ao poder político e daí ao poder econômico. Ao chegar ao poder político, a própria posição no campo de jogo triádico o obriga a jogar como o subgrupo oficial anterior (não que não lhe agrade, mas tem que disfarçar, declarando-se sob o jugo de forças ocultas, formidáveis e insuperáveis da conjuntura nacional e internacional…)
O jogador de número 3 está na posição OSCILANTE. Diz-se “oscilante” porque, por ser o competidor mais fraco e pobre, com voto mas sem voz, tem que aliar-se umas vezes ao oficial e outras ao antioficial oportunistamente, fingindo lealdades e virtudes que são disfarces de suas pequenas conveniências e seus grandes medos. Por isso ocorre a instável aliança “dois contra um”. É o leilão da cooperação do mais fraco, da massa popular desamparada, para obter de qualquer dos dois amos o máximo de bens de sobrevivência e reprodução (quase sempre, o que consegue é uma ração alimentar de sobrevivência animal; a maximocracia dos pobres se revela pura fantasia frustrada). Sua visão de mundo e modo de atuar se apóiam principalmente no cérebro direito, propenso à bondade, à confiança nas autoridades, à esperança, à solidariedade indiscriminada com o justo e o injusto, com o coerente e o incoerente, com o religioso e o econômico, com Deus e com o diabo. São os que mais defendem a igualdade, a Ética, a Bioética, a ecologia, o Green Peace e os direitos de todos contra a globalização, pela simples razão que eles são sempre as maiores vítimas da falta de barreiras de proteção contra o vandalismo predatório do oficial e do antioficial. Sua auto-compaixão chega até a pedir igualdade de direitos dos animais não humanos com os humanos (Singer, 1990).
O jogo da vida é um JOGO TRI-UNO: Três que se engalfinham em um só jogo. Quando um lado se desmembra, nele brotam outra vez outros três elementos ou subgrupos que se engalfinham em novos jogos tri-unos menores - que se jogam em canchas tridimensionais, em ciclos sucessivos. As posições – oficial, antioficial, oscilante - são fixas; as pessoas é que se deslocam pelas três posições tratando de conquistar o máximo de todo tipo de bens A posição oficialista é a que rende o máximo; a antioficial rende medianamente; e a oscilante rende o mínimo e até menos.
Por isso, a cancha triangular do jogo da vida tem níveis ou escalões que representam hierarquias ou classes de ganhadores: máximos ganhadores; grandes ganhadores; médios ganhadores; e ganhadores mínimos, perdedores de quase tudo (os pobres e miseráveis). A olimpíada da vida não tem medalhas de ouro, prata, cobre e latão: tem uma distribuição de bens satisfatores dos três cérebros (não só do central-econômico) que se classifica como de maxivivência, granvivência, mediovivência, minivivência e subvivência.
Desconhecer o jogo triádico significa reduzir tudo a uma média estatística monádica/niveladora – como renda per cápita, expectativa média de vida, o uso do poder nas democracias – ocultando infames diferenças e acreditando na retidão de cada subgrupo de jogadores, ignorando a inclinação de todos para a fraude, a maldade e a maximocracia a qualquer preço no jogo tri-uno da vida.
Sendo a vida um tal jogo tri-uno, a Bioética terá que re-estruturar-se de acordo com a ilustração 2; e terá que revelar os interesses subgrupais ocultados por seu enfoque monádico/unilateral/nivelador, de acordo com a ilustração 3. Com o conceito de jogo triádico , ficará bem claro que os subgrupos oficiais sempre impõem seus interesses, apesar de todas as declarações teóricas e pactos sobre Bioética e qualquer outra coisa.
A atual Bioética pouco ou quase nada se posiciona sobre as monstruosidades entre subgrupos (…que o paciente tem que estar plenamente informado e dar seu consentimento; que tem direito a preservar sua intimidade ou inviolabilidade; que não pode ser forçado à detecção de seu DNA – como se o oscilante/pobre tivesse cultura suficiente para entender as sofisticações biológicas de hoje e como se o subgrupo oficial tivesse escrúpulos ou não tivesse truques e meios para arrancar-lhe tudo isso, inclusive esse tal consentimento). Passado quase um século do descobrimento da dinâmica tri-unitária da realidade, na prática tudo continua cartesiano, darwiniano, monádico, fragmentário, como se isso não tivesse conseqüências. Prevalece a ditadura do oficialismo monádico e, por isso, exclusor. Será útil fazer um resumo do modo de ser e operar tri-uno dos sistemas.
Algumas Características do Modo de Ser e Operar dos Sistemas Tri-unos
1. ESPAÇO (ambiente físico-químico-ecológico)
A energia forma os sistemas tri-unos de expansão holográfica, fractal, que se interconectam por inputs e outputs para operar o fluxo energético. P or isso seus extremos são superpostos no espaço-tempo como escamas de peixe . Os sistemas formam uma rede universal, vertical (hierarquia), horizontal, transversal, trançada, quântica, biológica, mental, grupal, societária, dentro do planeta organizado como jaula triangular/triádica multinivelada de jogos de procriação e produção/partilha de satisfatores. São os diversos níveis de organização e manifestação da trança energética ondulatória. Segundo a física quântica será preciso redefinir “realidade” e sua percepção, como um ordenamento de conjuntos triádicos, cada nível com seu código ou plano estrutural/desenvolvimentista. Cada nível sistêmico acrescenta complexidade e características “emergentes”. (Como a rede universal tem detalhes não ainda percebidos, o risco das ilimitadas iniciativas interventoras da biotecnologia oficialista são devidas mais à sua arrogância e ao vicio da riqueza, que ao desejo de cooperar e conviver com a natureza).
2. CRONOLOGIA (tempo ou movimento evolutivo – diário, semanal, mensal, anual, milenar dos sistemas físicos, vegetais animais e humanos em sua infância, adultez, senectude, morte e transformação). Enquanto o universo estiver em expansão, a flecha do tempo aponta para o futuro.
Os sistemas e sua jaula tridimensional que é o planeta estão sempre em movimento co-transformativo-evolutivo, por ciclos ondulatórios regulares, irregulares, em escalas recorrentes, fractais. Cada ciclo é uma epigênese (ramificação diádica ou triádica com recorrência) do anterior, rumo à complexização sem fim, podendo progredir, dispersar-se, perder-se, decompor-se... É o probabilismo, a plausibilidade, a propensão: incerteza. (Ainda que a energia, o ser, a vida tenham impulso para a existência eterna ou maximocrática, o oficialismo é imediatista; o futuro a longo prazo não lhe importa -”a longo prazo estaremos todos mortos”).
3. PERSONAGENS ( Atores ou Atuantes)
Os sistemas, os agentes, as forças, os sujeitos de qualquer ação/jogo ocupam rotativamente três posições e formam três subgrupos reversíveis ou em turnos: OFICIAL (regente); ANTIOFICIAL (divergente); OSCILANTE (convergente) que umas vezes se mantêm isolados, umas vezes cooperam, e umas vezes competem - 2 contra 1. Nada é só sujeito ou só e sempre objeto, só e sempre causa, só e sempre conseqüência, só e sempre oficial, antioficial ou oscilante, mas trocam de posição, são “mutantes”. É o jogo triádico ou democracia triádica da energia. Entre mamíferos, os três subgrupos se caracterizam por seu comportamento interativo derivado da estrutura tricerebral. Os três subgrupos se criam, se apóiam e se definem reciprocamente e se hierarquizam em poucos ou muitos níveis. O uso do cérebro é tri-uno e em qualquer freqüência - alfa, beta, gama, theta, delta etc. O tricerebrar é considerado 38% genético; o restante se considera construção social sistêmica, bem ou mal feita, desde a família como sistema em rede com o entorno. (Os sistemas e os atores não são só os humanos: são os físico-minerais, os procariotes ou virais, os vegetais, os animais, não só como indivíduos, mas também como grupos, como espécies, como coletivos e totalidade do edifício da vida, ainda que os subgrupos oficiais só tenham interesse em si mesmos, os “auto-eleitos” dos deuses inventados por eles mesmos à sua imagem e semelhança).
4. PROCEDIMENTOS (regulamento pré-humano e humano-interferido da jaula triádica)
Os sistemas e seus subgrupos são movidos pela busca e acumulação de satisfatores, maximocraticamente, baseando-se em informação, criatividade e esforço ou luta com todos os meios disponíveis. A complexização de necessidades, desejos e imposições criou uma tecnologia de produção (agendonomia prestadia) e reparto/uso de satisfatores (agendonomia usuária) tal, que se tornou o olho do furacão do jogo triádico sócio-político moderno. Cada subgrupo de jogadores desenvolve seu arsenal tricerebral de meios para ser ganhador único. A ciência, a política, a moral e o mercado tratam de definir o regulamento da jaula e dos jogadores. Os monádicos pretendem que o conhecimento/informe definidor é objetivo, “realista” e que o regulamento daí derivado é o único verdadeiro e eficaz, universalmente. Os descontentes antioficiais e oscilantes alegam que o informe definidor e o regulamento são um misto proporcional de subjetivo/objetivo, o que os torna apenas aproximativos (não tão exatos) porque são em parte “reais” e em parte “criados”, inventados, adaptados aos vícios de percepção e interesses de cada tricerebrar individual e subgrupal em pontos diferentes do planeta. Há diferentes graus de respeito, adesão e cumprimento do regulamento pré-humano e humano-interferido na jaula triádica: diversidade cultural. Apesar de tudo, a rede ecosistémica global necessita manter-se nos limites da proporcionalidade, ou seja, entre os extremos da neguentropia (máximo) e entropia (nada, mínimo) para continuar a existir. O mercado “humano“ passa a ser ecomercado para incluir o planeta e todos seus ocupantes na agendonomia prestadia e usuária proporcional e assim garantir a intersustentabilidade. (A ambição de desenvolvimentismo máximos do subgrupo oficial está violentando todos os limites naturais e bioéticos).
Desde que Niels Bohr pressentiu e representou o movimento da energia como um átomo com três partículas, começou o movimento de reestruturação do conhecimento dentro do molde triúno, tri-unitário, triádico ou trialético no Ocidente (o Oriente tem sua cultura baseada no Yin-Yang-Tao). Assim o fez Freud com sua teoria do cérebro como um composto de – id, ego e superego. A moderna neurologia segue essa tendência, buscando e apresentando modelos tri-unos ou triádicos do cérebro (Piaget, 1967; MacLean, 1970; Luria, 1970).

Ilustração 4. Cérebro Triúno e seus Quatro Níveis Evolutivos
O gráfico anterior (De Gregori, 2000) apresenta quatro níveis de desenvolvimento tricerebral e suas funções em matriz geral (um referencial) de 12 módulos complementares, que podem ser mais, por subdivisão de cada nível, sem romper a matriz integradora. Na horizontal, são três grandes blocos, sendo que o da esquerda corresponde às funções lógico-analítico-teóricas predominantes no hemisfério esquerdo combinado com os lobos frontais e à camada neocortical; o do centro é o das funções organizativo-operativo-pragmáticas próprias do tronco cerebral e cerebelo combinados com o corpo caloso e a parte central do cérebro (amígdala, tálamo, hipotálamo, hipocampo, hipófise etc.); o bloco da direita é o das funções criativo-relacional-holísticas, predominantes não hemisfério direito combinado com a porção límbica e a parietal.
Na vertical, o gráfico apresenta o nível 1 (um), na base do gráfico, como sendo o genético-biológico-hereditário, onde se concentra grande parte das preocupações da Bioética (modos de reprodução, direitos do feto, clonagem, células tronco, etc.); e apresenta os níveis 2, 3 e 4 como sendo desenvolvimento ou desdobramento do nível um promovido pelo ambiente – família, classe social, etnia e sua cultura. No nível 1 e 2 atuam a família, a escola e a catequese para ir “socializando” a criança. A Bioética tem a criança protegida contra a violência física e sexual, pero ignora quase toda a violência psico-moral de pais, mães, educadores e catequistas desequilibrados, omissos ou perversos. Exige-se um licenciamento para dirigir um carro; exige-se um de licenciamento e um técnico para organizar e administrar uma empresa de criação de frangos. Já para organizar e manter um “empresa” (família) de criação de seres humanos…
A teoria do tricerebrar em diversos níveis define uma pessoa ou uma etnia como alguém que pensa, cria e age; ou, noutras palavras, um ser em seus processos cognitivo, afetivo e psicomotor que tem raízes na energia genético-endócrino-neuronal, mas que se eleva até alturas culturais de nível 2, 3 e 4. É muito mais que o meramente biológico (nível 1).
2. REFERENCIAIS
Fracassou a tentativa feita pelo paradigma diádico marxista-socialista para superar o paradigma monádico positivista anglo-saxão. Fracassou também a tentativa de superação do paradigma monádico positivista anglo-saxão proposto pela semiótica, pela interdisciplinaridade, pela teoria do caos e teoria da complexidade. O problema da produtividade está resolvido pelas ciências mais exatas. Mas o problema da convivência nunca foi resolvido e está piorando porque as ciências sociais e humanas monádicas fracassaram. Como conseqüência, fracassam a Ética e a Bioética porque pertencem às ciências sociais e humanas que seriam fundamento de regulação.
A proposta do paradigma tri-uno que pretende a fusão das ciências sociais e humanas em um corpo integrado de conhecimento que resultou na teoria de Cibernética Social (De Gregori, 1980) tampouco avançou muito, desde os “tempos triádicos” de Niels Bohr, de Freud, de Lupasco (Badescu & Nicolescu, 1990) de Paul MacLean, de John Eccles (1980) etc. Mas haverá que insistir se quisermos parar a “livre” depredação do planeta e da vida postulada pelo paradigma de Bacon, Adam Smith e Charles Darwin.
Para superar o terceiro equívoco da atual Bioética e de todo o paradigma positivista monádico (discurso automultiplicativo), Cibernética Social propõe modelos e quadros classificadores e processadores de informação que chamaremos “quadros referenciais”. Foram usadas, anteriormente, partes de um referencial global, como os “Quatro Fatores Operacionais” ao apresentar “Algumas Características do Modo de Ser e Operar de Sistemas Tri-unos” (espaço, cronologia, personagens e procedimentos, que podem ter muitas subdivisões, mantendo seu desenho básico, como matriz). Foi usado, também, o referencial do tricerebrar em quatro níveis, apresentado na ilustração 4. O referencial global que se chama “Hológrafo Social” requer explicações que não cabem não espaço de um artigo. Podemos apresentar uma de suas partes que se denomina “Show do Jogo Mundial” (De Gregori, 2000) para situar, pela Cibernética Social, as “causas” pelas quais luta a Bioética. O referencial do Show do Jogo Mundial que vamos a apresentar é uma versão abreviada, em que são omitidas as ciências ou os códigos de conhecimento que correspondem a cada um dos seus 16 cenários/níveis.
>
O cenário 01 é o da física quântica e de astronomia ou da energia tri-una e sua ciência físico-quântica. “Proporcionalismo” (no centro) é sinônimo de homeostase ou equilíbrio instável dentro de uma margem de variação. Damos preferência ao conceito de “proporcionalismo” porque é urgente estabelecer as fronteiras ou limites da homeostase social em números para não deixar o “livre” oficialismo destroçar a natureza ilimitadamente. O proporcionalismo se baseia na lei da média e extrema razão, traduzida pelo matemático Gauss na curva em forma de sino. É a maneira como a natureza constrói os sistemas: por módulos combinados de 62% e 38% (que é um arrendondamento do número 1,618 e 0,618) cuja razão se expressa por PHI ou FI da letra griega -

Muito ganharia a humanidade se a Ética/Bioética desafiasse o “livre” mercado e a lei do mais apto impondo-lhe os limites proporcionais da média e extrema razão, ilustrados pelas três partes de um braço, pelos cânones artísticos de Leonardo da Vinci ou pela curva de sino de Gauss. Estamos fartos de discursos enganosos do oficialismo sobre ética, moral, justiça. O que quer dizer “ético é o moralmente aprovável” ( Stepke, 2002) ? Quem vai decidir o que é “moralmente aprovável”? Deixemos de palavrório e vamos aos números!!!
O cenário 02 é o campo físico-químico-biológico ou das ciências mais exatas dedicadas à produção e tecnologia de produtividade. A ação da economia do “livre” mercado e da lei do mais forte, perseguindo riqueza máxima e não vida máxima, está condenando o planeta ao holocausto dentro de unos 50 anos segundo alguns e 100 anos segundo outros mais otimistas. A atual economia é incompatível com a atual ecologia. Não faz muito sentido lutar por regras bioéticas protetoras dos elementos físicos, vegetais e animais num planeta já condenado. Seria pintar um navio que está afundando… Falta impor limites à depredação que os subgrupos oficiais narcisistas praticam sobre tudo o mundo animal (monopólio de tecnologia de reprodução e alimentação), vegetal (monopólio fitogenético e plasma) e físico (monopólio de recursos físicos), com a desculpa de que atuam para o desenvolvimento e o bem-estar de todos.
O cenário 03 é o do surgimento do autocontrole progressivo em e entre seres até chegar a níveis de conscientização ou livre arbítrio e feedback com os mamíferos, cujo potencial de feedback está concentrado nos três cérebros. À ação conjunta dos três cérebros para enfrentar e solucionar problemas de sobrevivência, reprodução e convivência damos o nome de tricerebrar ou de Ciclo Cibernético de Feedback. O marketing e a doutrinação ideológica de consumo, a lavagem cerebral, a domesticação de crianças nas escolas, o terrorismo espiritual, o uso do futebol, novelas, carnavais e drogas como ópio do povo produzem a alienação planificada pelos subgrupos oficiais. Trata-se, claramente, de violência psicológica-moral, porque priva a maioria das pessoas e dos países de sua capacidade de feedback ou autocondução. Pela ditadura da biologia e seu geneticismo, a Bioética tem dedicado pouco esforço aos direitos da vida psíquica ou mental das pessoas ou dos povos dominados. O próximo problema bioético a ser enfrentado será o implante de chips espalhados pelo corpo humano como se faz com prisioneiros em libertado condicional, com aves migratórias e outros animais, para entregar o controle remoto nas mãos do oficialismo.
O cenário 04 é, por excelência, o locus da bioética geneticista por estar a serviço do narcisismo da espécie humana: tudo sobre manipulação da reprodução humana (e algo da animal e vegetal) algo sobre os ciclos intermédios e outra vez tudo sobre o morrer (eutanásia, suicídio, morte cerebral, transplantes etc.) e o ressuscitar (criobiologia: congelamento de cadáveres para futura reanimação). Nesse cenário é onde menos se pode prosseguir com o paradigma positivista monádico. A família é uma cancha de jogo de três posições básicas, onde jogam três subgrupos: a mãe na posição oficial; o pai na posição antioficial (quando quer impor seu machismo) ou oscilante quando colabora; e os filhos na posição oscilante até a adolescência quando se tornam antioficiais para emancipar-se ou proclamar sua independência.
O arsenal usado pelo homem para ganhar mais é bem visível: foi detectado e devidamente criminalizado faz bastante tempo. Resume-se a - uso e abuso do arsenal físico-sexual-econômico - típico do cérebro central e que termina na Delegacia da mulher e do menor. Mesmo assim, continua causando muitos danos, principalmente aos filhos. No lado menos visível, está o arsenal usado pela mulher para sair ganhando mais: é revestido de “doçura/fraqueza” emocional, e não é reconhecido como violência pela atual psicologia, nem criminalizado pelo atual ordenamento jurídico. Resume-se a – uso e abuso do arsenal psico-moral (cantilena, discussão sem lógica, chantagem emocional ou afetiva, disfarce de fraqueza/vítima, manipulação por lágrimas, por religião, pelo ocultismo, por criação de complexo de culpa etc.) - que ela pode utilizar 24 horas por dia, sem esforço aparente e em forma tão sutil que quase não se deixa sentir. É legítimo, mas pode tornar-se violência psicológica sem limites e impune, causando muitos danos, principalmente às crianças, pois são indefesas. Sobre a violência psico-moral dos pais, do marketing e da propaganda, das religiões, das ideologias, da mentira política e econômica, a Bioética não tem feito quase nada (fala num inverificável “assédio moral”).
Para situar incidências da Bioética no ciclo de vida humano, podemos examinar o referencial que segue:

A vida humana e seus jogos tri-unos começa no ciclo 2.1 de fecundação/gestação, e prossegue até o ciclo 11 de transformação ou mudança do atual estado de ser. Haveria que rediscutir muito os direitos individuais de homens, mulheres, homoeróticos, negros, indígenas, migrantes etc. em cada um dos ciclos entre o 2.1 ao 11. É preciso advertir que todos estão sob o controle e os interesses dos três poderes máximos de qualquer grupo, comunidade ou país, que são a cúpula dos subgrupos oficiais e a quem haveria que enfrentar, tanto em suas freqüentes omissões como em seus eternos abusos. Historicamente, a primeira cúpula a organizar-se foi a do poder sacral que dispunha da vida de seus adversários religiosos queimando-os na “santa” fogueira; depois, foi-se organizando o poder político (a idéia de Estado, desde o século XVI) impondo-se ao poder sacral, no Ocidente, e que dispunha da vida de seus adversários políticos na forca, na guilhotina, ou no paredão e em suas estúpidas guerras em nome da democracia; e nos últimos 300 anos foi-se instalando na surdina o poder econômico que se tornou governo mundial desde o fim do império soviético e sacrifica milhões de crianças, enfermos, famintos e pobres no altar do bezerro de ouro, oficiado pela pequena e poderosa “Seita da Bolsa”. Os bioéticos teriam que propor seu conjunto de regras como válidas para tudo no planeta, para todos os indivíduos e em todos seus ciclos. Necessitariam força e coragem frente às barreiras econômicas, às fronteiras nacionais, às crenças religiosas atrasadas (como, por exemplo, a excisão do clitóris de meninas nalguns países islâmicos, ou a proibição de transfusão de sangre entre as Testemunhas de Jeová etc.) que não se atrevem a desafiar.
Retornando ao Show do Jogo Mundial, no cenário 05 estão as organizações, empresas, instituições que chamamos prestusuárias porque são um conjunto de personagens prestadios e usuários ( producers and consumers acoplados em “prodsumers”, segundo Alvin Toffler). Até este cenário do ecossistema, o que mais chamava a atenção era o individuo em seu família e suas necessidades reduzidas a “o social”. Deste cenário 05 em diante, impõe-se, gritantemente, o coletivo, o comunitário que o paradigma dominante chama de “econômico” ou mercado. Adam Smith foi o que classificou toda a realidade como socioeconômica e como pública e privada. Cibernética Social desglossou as duas categorias de Adam Smith em 14 subsistemas (algo tomado como um todo é um sistema e tem sua existência sustentada por 14 canais, áreas ou subsistemas de circulação de energia) que veremos não cenário seguinte. Segundo esse novo referencial, temos instituições de “prodsumers” em 14 grandes áreas ou subsistemas (Müller, 1958).
No cenário 06 temos uma aproximação à comunidade, tribo ou ao município. Pelo paradigma tri-uno e referencial dos 14 subsistemas, uma comunidade tem o seguinte modelo:
A ilustração mostra, da esquerda para a direita e da base ao topo, símbolos da evolução tri-una até chegar ao cérebro que começa a co-criar mais intencionalmente a evolução estabelecendo 14 áreas ou subsistemas de vida com progressiva institucionalização do poder sacral, do poder político e, finalmente, do poder econômico. Toda a historia foi manejada, até o presente, por um paradigma monádico/exclusor dos demais. Por isso, cada cérebro e seu correspondente poder, ao tornar-se supremo tratava de excluir os outros dois, por negação, por exclusão, perseguição e morte. Falta um salto à frente: ver/admitir a existência do triádico e aprender a convivência proporcional.
O modelo anterior ajuda a entender por que as religiões continuam lutando para impor seus pontos de vista sobre questões bioéticas e sobre toda a comunidade. São reminiscências do tempo em que os subgrupos religiosos eram subgrupo oficial supremo no Ocidente e controlavam tudo fazendo-se passar por representantes dos deuses ou de poderes sobrenaturais para justificar seu poder frente aos demais. Eram teocracias, parcialmente superadas no Ocidente. Mas continuam supremas no Oriente Médio e outras partes do planeta.
O modelo anterior ajuda a ver, também, por que o cambaleante Estado e os políticos continuam lutando para impor seu poder dentro de inúteis fronteiras nacionais e por converter todo o comportamento humano em lei (Romeo Casabona (1996). São reminiscências do tempo em que os subgrupos políticos eram o subgrupo oficial supremo e submetiam a seus interesses o poder sacral e o poder econômico.
Por fim, o modelo anterior ajuda a entender, também, por que o poder econômico acaba por impor-se: porque compra o poder político e o sacral. Todas as ”bios” – biosfera, Bioética, bioecologia, bioquímica, biodiversidade, biofitologia, biônica, biotecnologia, biossegurança, bionutrição, bioeducação, biopolítica, biolegislação, biofiscalidade etc. – serão submetidas e ajustadas aos interesses desse poder econômico supranacional, para quem o fim oficialista (acumulação de riqueza) justifica tudo, enquanto os fines do antioficial e dos oscilantes, que são o 80% da humanidade, não justificam nada quando em contradição com o oficialismo. Enquanto não se criar uma bioeconomia tri-una para substituir a economia monádica e maximocrática fundamentada em Adam Smith e Charles Darwin, e uma biogovernabilidade supranacional, o esforço de regulamentação bioética não é mais que uma pobre cavalgada quixotesca.
Os cenários de número 07 em diante apresentam o mesmo problema: tornaram-se casamatas desde as quais o oficialismo econômico de progressiva intensidade faz, da autodeterminação individual e dos países “em vias de desenvolvimento”, uma esperança frustrada, se não uma triste piada para a maioria, à exceção de reduzidos subgrupos oficiais locais que funcionam como pro-cônsules e cúmplices (Garrafa, 1997).
No cenário 15 – o das três culturas simbólicas ou três realidades virtuais – dá-se a guerra ideológica dos três subgrupos. O subgrupo oficial faz sua doutrinação economística darwiniana, retirando de todos o título de cidadãos para impor-nos o de consumidores. Quando se fundou essa doutrina (liberalismo, “livre” mercado, laissez-faire para os subgrupos econômicos) era uma busca de liberdade frente ao absolutismo dos reis e da igreja católica no Ocidente e não havia emergido a consciência do problema ecológico, nem dos abusos da biotecnologia ameaçando a continuidade da vida com suas deturpações artificiais. Agora, o problema é gravíssimo, e as diversas organizações de cientistas (Clube de Roma, Clube de Bariloche, Clube de Lisboa etc.) e de direitos humanos não conseguem deter a fúria predatória do poder econômico. Este se defende comprando proteção do poder político (o governo norte-americano não assina e não cumpre tratados internacionais, sejam ambientalistas, sejam de tribunais, sejam de desarmamento ou de abolição da guerra etc.) Muito menos poder para barrar esse pan-economicismo assassino têm as ideologias religiosas (ficcionais-icônicas). São ardorosos defensores da sacralidade e do “mistério” da origem da vida individual. Mas se descuidam dos oficialistas econômicos que, como donos da vida, mandam matar (pena de morte) segundo seus interesses, mandam seus jovens matar outros jovens e morrer no outro lado do mundo para defender interesses exclusivos do oficialismo que se faz passar como a encarnação da Pátria e do bem comum.
Por que os bioéticos não propõem os princípios de Nüremberg a todos os que promovem guerras? Por que não propõem que os combatentes das guerras sejam, primeiro, o casal governante de cada lado, e ao cair algum deles seja substituído pelo membro correspondente do casal do escalão imediatamente inferior, e assim sucessivamente. Ou seja, em lugar de começar por exigir patriotismo e heroísmo dos de baixo, começar por exigir patriotismo e heroísmo dos de cima… Antes que gritem as feministas: as esposas, com o sutil arsenal psico-moral, governam maridos e, outras vezes, põem os homens a bater-se por elas como Helena de Tróia e Cleópatra, por exemplo. Elas merecem, sim, um lugar entre os primeiros combatentes…
No cenário 16 - o futuro global - prevalece a tanatologia e o imaginário escatológico das diversas filosofias e correntes religiosas, donas quase absolutas da morte e do pós-morte (ninguém leva a sério promessas de uma sociedade do ócio ou de paraíso na terra). O imaginário escatológico religioso exerce uma influência enorme nas pessoas, principalmente naquelas com predomínio de cérebro direito e pouco cérebro central-prático ou pouco esquerdo-crítico. Isso tem levado muita gente ao martírio. Hoje em dia, assiste-se ao espetáculo dos kamikazes e dos homens-bomba. Por que? Um menino-bomba palestino, detido antes de sua imolação, quando interrogado se sabia o que estava fazendo e o que o esperava respondeu: “sim, depois de minha morte me esperam abundantes águas, frescas sombras e 72 virgens”.
O cenário 16 se relaciona com valores tricerebrais dos quais se deriva o conceito chave de “dignidade” do ser humano (pouco se fala da dignidade de outros seres). Isso quer dizer que cada ser humano vale algo e merece algo por causa disso.
E o que vale um ser humano indígena, africano, branco, amarelo, masculino, feminino, homoerótico, um judeu, um palestino, um iraquiano e um norte-americano em cada ciclo de seus 80 anos de existência (vide ilustração 7)? O que deveria ser feito para reconhecer, respeitar e compensar esse valor? Não será só um discurso consolador, enganador?
Pelos três cérebros e três subgrupos é evidente que os membros do subgrupo oficial atribuem valor máximo a eles mesmos; aos antioficiais os oficialistas atribuem valor negativo taxando-os de heréticos, apóstatas, rebeldes, diabólicos ou membros do eixo do mal; e aos oscilantes atribuem valor de mercado, ou seja, pelo que produzem (portanto, para encarcerados, crianças de rua, idosos, aposentados e deficientes não há que consumir recursos com eles: seria desejável que “não vivessem tanto tempo para não pesar demasiado nas déficit da Previdência” como expressou um de seus Ministros).
3. CONCLUSÕES
Pode-se constatar que há “dignidades” diferentes para cada subgrupo, cada nacionalidade e para cada nível de vida, já que a medida é fornecida pela métrica de Bacon-Descartes, Adam Smith-Darwin e dos “auto-eleitos” favoritos dos deuses. Durante os anos 60- 70, a CIA derrubava governos e apoiava ditaduras que matavam milhares na América Latina. Quando se conseguia matar um norte-americano, jornalista ou instrutor de tortura, o mundo vinha abaixo. Quando matam a um iraquiano e a um norte-americano, a reação é a mesma? Se a “dignidade” fosse a mesma…
A eutanásia ou o suicídio são ilegais e condenados pelo oficialismo sacral, político e econômico, só porque o individuo quer dispor de seu direito a “to be or not to be”. Entretanto, esses mesmos subgrupos oficiais podem dispor de nossas vidas assando-nos na “santa fogueira”, na cadeira elétrica, matando-nos de fome só para respeitar as viciadas leis de sua roleta do mercado, ou mandando os jovens a matar outros jovens e a morrer para defender interesses exclusivos do oficialismo.
Frente à facilidade com que os subgrupos oficiais dispõem das vidas de crianças que morrem de fome e enfermidades controláveis, ou de meninas que têm que prostituir-se para ganhar a comida do dia, ou da vida de adultos privados de educação e de trabalho para ganhar a vida e que acabam encarcerados e torturados, ou de idosos que têm seus rendimentos de aposentados recortados enquanto sobem todos os medicamentos e lhes são negados serviços mínimos de saúde, não passa de cinismo o afinco com que se discute a clonagem de gente e bichos de estimação, a fertilização em laboratório, o uso de embriões, o uso de células tronco, os experimentos fitológicos, animais e humanos (Cordeiro & Trujillo, 2002). É a mesma corrente bioética geneticista predominante, e não a corrente ecossistêmica, que finge proteger a vida quando se opõe a desconectar os caríssimos maquinismos que prolongam artificialmente a vida de um moribundo; que finge valorizar a vida opondo-se a uma eutanásia com a qual estavam de acordo o futuro moribundo e a família que a implora… Não se pode deixar de pensar que a vida está em mãos de máfias econômicas, religiosas, políticas, farmacológicas, biomédicas, raciais etc.
A proposta é, pois, que os bioeticistas revisem seus paradigmas para pensar a Bioética como algo global (para todo o globo e para a convivência de todos os seres do sistema solar) e como algo sistêmico que supõe a proporcionalidade tri-una como parâmetro e fundamento ético, moral e bioético. Isso daria mais oportunidades à paz que à guerra, mais à cooperação que à competição, mais à solidariedade que ao individualismo, mais à bondade que à ferocidade reinante.
BIBLIOGRAFÍA
BADESCU, Horia & NICOLESCU, Basarab. Stéphane Lupasco. L'homme et l'oeuvre. Monaco: Editions du Rocher (Colection "Transdisciplinarité") 1990.
CORDEIRO, Rogério G.F. & TRUJILLO, Luz Marina. Bioética – A lente de aumento. In Cadernos de Ética em Pesquisa, Ministério da Saúde (Brasil), 2002.
DE GREGORI, W. Cibernética social. Bogotá: ISCA Ed., 1984.
______________. A construção familiar-escolar dos três cérebros. Bogotá: ISCA Ed., 2000.
______________. Manifiesto de la proporcionalidad. Caracas: Alcaldía, 1985.
ECCLES, John C & Popper Karl R . El yo y su cerebro . Barcelona: Editorial La- bor,1980.
GARRAFA, Volney et al. Saúde pública, bioética e eqüidade. Revista de Bioética 1997.
GELL-MANN, Murray. The quark and the jaguar. New York : W. H. Freeman, 1994.
GLEICK, James. Caos - A criação de uma nova ciência. Rio de Janeiro: Campus, 1989.
LURIA, Aleksandr . El cerebro humano y los procesos psíquicos: Análisis neuropsicológico de la actividad consciente . Barcelona : Fontanella, 1979.
MacLEAN, Paul D. The Triune brain, emotion, and scientific bias . New York: Schmitt Ed., 1970.
MORIN, Edgar. Introducción al pensamiento complejo . Barcelona: Ed. Gedisa, 1990.
MÜLLER, Antonio Rubbo. Teoría de la organización humana. São Paulo: Edit. Sociología Política, 1958.
PIAGET, Jean. Génesis de las estructuras lógicas elementales: Clasificaciones y seriaciones. Buenos Aires: Guadalupe, 1967.
PRIETO MOLANO, Carolina . En torno a la bioética. Oficina Regional de la Organización Mundial de la Salud y OPS – División de Salud y Desarrollo. Santiago (Chile): 2003.
ROMEO CASABONA, C. M. Del gen al derecho . Bogotá: Universidad del Externado de Colombia, 1996.
SINGER, Peter. Libertação animal. Porto Alegre: Ed. Lugano, 1990. Esa re-edição é uma revisão da obra publicada em 1975.
STEPKE, Fernando Lolas. Temas de bioética. Santiago de Chile: Editorial Universitaria, 2002. |