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A QUINTA AMERÍNDIA NO SHOW DO JOGO MUNDIAL

W. De Gregori

 

       Percebemos e comunicamos a realidade por nossos três cérebros. Daí que, antes de fazer uma análise da conjuntura global, é preciso analisar a conjuntura de nosso cérebro individual e coletivo.

       A cabeça com que percebemos, analisamos e comunicamos a realidade tem três focos, três canais ou três ângulos. A razão é porque o cérebro está construído em forma triangular ou tridimensional como tudo no universo, desde a energia (o átomo com suas três partículas) o próprio planeta que é uma jaula de três cantos, até as trindades religiosas.

 

TUDO VEM EM FEIXES DE TRÊS. TUDO É TRI-MEMBRADO. TUDO É TRI-UNO: três em um e cada qual sendo um de três.

 

Já dizia K. Marx: “cada qual pensa de acordo com sua posição social”. O que ele não sabia era que o cérebro tem 3 modos de perceber/pensar, seja qual for a posição social de seu dono:

- o cérebro esquerdo é lógico, verbal, quantitativo (“mente ocidental”);

- o cérebro direito é emocional, qualitativo, não-verbal, intui o artístico e o sagrado.

- o cérebro central é pragmático, ativista, dedicado à riqueza e à reprodução.

       A importância (escala de valor) do que percebemos, como o interpretamos e como reagimos a ele, corresponde ao lado dominante de nosso cérebro, primeiro; em seguida, ao lado subdominante; e depois ao mais fraco. Por exemplo: os anglo-saxãos, em sua maioria, têm o cérebro central como predominante; têm o esquerdo como subdominante; e por último, o direito. A análise de conjuntura feita por gente com este tipo de hierarquia tricerebral inconsciente estará dominada, primeiro, pelas conveniências ou interesses econômicos; em segundo, por seu lado esquerdo de caráter quantitativo e legal “democrático”; em último lugar, por seu caráter ético, solidário ou ecológico. É a cabeça neoliberal.

       Os “latino-americanos”, em sua maioria, têm como predominante o cérebro direito; como subdominante, o esquerdo “legalista” e cantinflista; e por último, o central. A análise de conjuntura feita por gente com este tipo de hierarquia tricerebral inconsciente estará dominada, primeiro, por questões religiosas, identidades, cultura artística e romântica; em segundo lugar, por debates intermináveis e tentativas de regular tudo por leis, decretos, convênios e discursos etc.; em último lugar, pelas necessidades econômicas, por trabalho em equipe, desenvolvimento de empresas e emprego etc. É a cabeça sonhadora.

       Os grupos que têm como predominante o cérebro esquerdo crítico ou dialético, como subdominante o direito sonhador e, por último, o central prático, produzirão análises com enorme denúncia de injustiças e de mentiras, com fantasias inovadoras, com muitos apelos à ética e, por último, com poucos planos práticos para melhorar o trabalho, o desenvolvimento e o bem-estar. É a cabeça revolucionaria.

       Esta é uma apresentação unilateral dos três modos de usar o cérebro. O recomendável é que cada indivíduo, grupo ou nação usem os três cérebros de maneira proporcional, harmônica, equilibrada, sem exagero do lado predominante para não atrofiar os outros dois.

 

       Proporcionalismo: é um fundamento de ética, justiça e harmonia, baseado no principio matemático da média e extrema razão, que se expressa em porcentagens de 62% por 38%, repetitivamente, em qualquer escala. Isso pode ser visto num braço, nas proporções do rosto, no formato dos livros, na escala musical, na combinação das cores, de alimentos e por toda parte.

“NEM IGUALAÇÃO, NEM DESIGUALAÇÃO MÁXIMAS:

SIM ÀS DIFERENÇAS, MAS PROPORCIONAIS”.

 

       Quando observamos o tricerebrar em famílias, empresas ou comunidades, vamos constatar que podemos agrupar seus membros em três blocos, bandos ou subgrupos, com diferentes comportamentos e modos de lutar pela vida.

       E por que alguém vai preferir atuar num subgrupo mais que noutro, com um arsenal mais que com outro? A preferência corresponde à predominância tricerebral de cada indivíduo.

- Quem tem predomínio do cérebro central prefere ser subgrupo oficial: comandar.

- Quem tem predomínio do esquerdo prefere ser subgrupo antioficial: opor-se.

- Quem tem predomínio do cérebro direito prefere ser subgrupo oscilante: mediar.

       Todos os sistemas energéticos e cada subgrupo são maximocráticos. Quer dizer: têm um impulso para conquistar e agarrar sempre mais, o máximo de energia e meios satisfatores de suas necessidades de sobrevivência e procriação. Essa busca maximocrática cria a competição entre os sistemas ou entre os subgrupos, pois cada qual quer ganhar sempre mais. Cria também a cooperação sempre e quando ajude a ganhar mais na sobrevivência e procriação.

       A competição se dá entre o subgrupo oficial que detém o poder e os meios econômicos, e o antioficial que aspira ao mesmo posto. A cooperação se dá habitualmente entre o oscilante e o oficial; algumas vezes, quando muito explorado e oprimido, o oscilante se rebela contra o oficial e coopera com o antioficial, como no caso das greves, das revoluções. Solucionado o conflito, volta a ser oscilante do que seja oficial, até a próxima rebelião.

       As relações familiares, escolares, políticas e econômicas formam o jogo triádico para disputar os meios satisfatores das necessidades. Essa competição ou disputa pode chegar a ser selvagem, pode ir até o máximo, até extremos de violência, que é quando dizemos que um subgrupo ou os três se tornam negativos, injustos, desproporcionais. A paz e a boa convivência dependem de que os três subgrupos queiram ser proporcionais. É indispensável conhecer as características de cada subgrupo, suas intenções e metas, sua comunicação táctica e os arsenais de que dispõe para impor-se ou pressionar aos demais.

Por isso dizemos que o planeta global é uma jaula triádica onde acontecem esses jogos tri-unos, tri-cerebrais e tri-grupais.

 

O NOVO CICLO MUNDIAL

 

       Muitas coisas mudaram no Show do Jogo Mundial (relações entre tudo o que há no planeta) desde o final da guerra dos últimos 500 anos, com a derrota do experimento socialista (1989, caída do muro de Berlin) que foi a última batalha entre anglo-saxãos, latinos e eslavos, desatada com a Reforma protestante-burguesa de 1517.

•  Triunfaram os anglo-saxãos com seu modo de vida e foram derrotados todos os demais.

•  Triunfou o protestantismo (velho testamento) e foi derrotado o cristianismo (novo testamento).

•  Triunfou a ideologia capitalista-financeira e foi derrotada a ideologia socialista, cooperativista, solidária. Triunfaram os grandes concentradores de capital com suas instituições e foram derrotados os trabalhadores e seus sindicatos.

•  Triunfou a lei do mercado com a supremacia do poder econômico, foi derrotado o Estado com seu poder político regulador.

•  Triunfaram as classes altas ricas, e foram derrotadas as classes médias e baixas pobres. O planeta se tornou uma ditadura mundial dos subgrupos que detém o poder econômico-financeiro.

 

       Desde o 1500, Europa se transformou num jogo triádico (três lados) entre elites de latinos, anglo-saxãos e eslavos, buscando a posição hegemônica (ser subgrupo oficial).

       Os países latinos são: Itália, Espanha, França e Portugal.

       Os países anglo-saxãos da Europa são: Inglaterra, Irlanda, Dinamarca, a Península Escandinava, Holanda, Alemanha, Áustria e países mistos como Suíça, Bélgica, etc.

       Os países eslavos são: Rússia, Bielorrússia, Bulgária, Polônia, Ucrânia, Geórgia, Albânia, Sérvia etc.

 

       Este gráfico ilustra como fazem rodízio os três grandes subgrupos étnicos europeus em seu grande jogo triádico de poder, representado pelo triângulo central maior. No gráfico da esquerda, está o triângulo do subgrupo latino na posição de oficial que, por sua vez, tem jogo triádico interno representado por triângulos menores: no antioficial está o triângulo dos anglos com seus três subgrupos internos; no subgrupo oscilante estão os eslavos, também com seus três subgrupos internos. O gráfico do centro mostra a ascensão dos anglos à posição oficial, dos eslavos à posição antioficial e o rebaixamento dos latinos à posição oscilante. O gráfico da direita mostra o rebaixamento dos eslavos (da posição antioficial à oscilante) e a ascensão da União Européia à posição antioficial do império anglo-americano.

É de notar que os três subgrupos internos se unificam ao redor do oficialismo quando têm que enfrentar um subgrupo antioficial/inimigo externo que seja agressor.

       O jogo triádico maior do século XX ou da quarta Ameríndia terminou com a vitória do paradigma protestante-darwinista-anglo-saxão-neoliberal. Sua “vitória” aumentou sua arrogância até o ponto de decretar novas “ordenações” colonialistas, resumidas no Consenso de Washington, ou seja, decretou a globalização do neoliberalismo ou modo de vida anglo-americano.

       Enquanto o império luta para impor-se como subgrupo oficial global, surgem rebeliões, como a da China na Ásia, como a do Iraque e Irã no Oriente Médio, como a da Venezuela e da Bolívia na Indoamérica etc.

A QUINTA AMERÍNDIA NO SHOW DO JOGO MUNDIAL
 

       INDOAMÉRICA OU AMERÍNDIA – é um dos nomes para substituir o de "América Latina". Os 5 ciclos que resumem a historia da Indoamérica são:

 

1. A primeira Ameríndia foi a pré-colombina – 40.500 anos atrás.

 

2. A segunda foi a invasão européia – desde 1492.

 

3. A terceira foram as lutas de independência (1804-25), com êxito só nos EUA (1776).

 

4. A quarta, foi a tentativa de revoluções socialistas, durante todo o século XX.

 

5. A quinta Ameríndia é esta que se está gestando na Venezuela.

 

       O jogo do século XX ou da quarta Ameríndia terminou com a vitória do paradigma protestante-darwinista-anglo-saxão-neoliberal monádico (caída do Muro de Berlín em 1989), e a renúncia de Gorbachev (dissolução gratuita da URSS em 1991) que marcaram o fim desse ciclo. Marcaram, também, o fim da guerra dos 500 anos dos anglo-saxãos reformadores contra os latinos católicos e o resto do mundo. O Papa João Pablo II foi um valioso peão do império anglo-saxão, abrindo a brecha da Polônia e exterminando a Teologia da Liberação na Indoamérica, acreditando ser o restaurador do império papal da Idade Média.

       O império liderado pelos EUA reforçou nossa dependência por diversos mecanismos: os missionários e as Escolas Superiores de Guerra, como polícia ideológica; a CIA e seus símiles em cada país, como polícia para-militar; a Trilateral e o FMI em cumplicidade com as exíguas mas poderosas elites de cada país, como polícia econômica. A essa histórica vitória, Francis Fukuyama chamou, exageradamente, O Fim da História .

       A América Latina queria desatrelar-se dos EUA, e alinhar-se com a URSS. Agora já não sabe onde buscar proteção contra a voracidade do subgrupo oficial anglo-americano e seus cúmplices econômicos internos.

       Para a América Latina e o Caribe, tanto a proposta desenvolvimentista do capitalismo como a do socialismo fracassaram na meta de arrancar-nos do atraso e da desproporcionalidade (injustiça social interna e externa).

 

       5. Quinta Ameríndia . Para onde vai este novo ciclo pós-moderno ou pós-socialista e pós-capitalista? O que é o que muda? Qual é o ritmo, a velocidade dessa mudança? O que aconteceu era uma mudança prevista, planeada ou foi acontecendo pouco a pouco, descontroladamente, caoticamente? Quem está melhor e quem está pior nesta transição? De que parte do planeta, de que paradigma ou cultura são os que estão melhor e os que estão piores? Em que consiste esse “estar melhor e estar pior”? O que se pode prever e implementar no novo ciclo?

       5.1. Embora, no começo, o governo Chávez parecia pouco definido, agora sua proposta para a América Latina (Bolivarianismo) e para o mundo (Socialismo do Século XXI) está mais clara e pujante. Por sua proposta de redes político-econômico-culturais de integração, pode-se afirmar que o (neo)Bolivarianismo é um esforço de realização da Quinta Ameríndia. Ainda que a liderança e a vanguarda do Bolivarianismo estejam com a Venezuela, o projeto é de toda a América Latina. A contra-estratégia dos EUA é tratar de desqualificar Hugo Chávez e o Bolivarianismo e de fazer Tratados de “Livre” Comércio unilateralmente com cada país latino-americano, como o que já fez com Centro-América, com Colômbia, Peru e Chile.

       Não é hora de cada país buscar seu próprio projeto de independência política e econômica. É hora de unir-se à volta de um projeto de Bolivarianismo cada vez mais claro e mais forte, para impedir que EUA torne a impor a doutrina de seu Presidente Monroe (“América para os americanos do norte”, 1823) contra a doutrina integracionista de Bolívar – “América para os povos da Pátria Grande!”

       A construção da Quinta Ameríndia requer um esforço teórico/ideológico renovado.

       Os primeiros passos para a implementação prática do Bolivarianismo na Venezuela são as “Misiones” e outras iniciativas; na América Latina, é a ALBA – Alternativa Bolivariana para as Américas com suas projetos de PetroSul, RedeSul, UniSul, BancoSul, DefenSul, LealSul, ViaSul, OeaSul, etcSul, para contrabalançar a ALCA que não é mais que a oficialização moderna do colonialismo yankee. Bolívia, com sua proposta de Tratado de Comércio dos Povos, aderiu ao bloco Bolivariano.

 

       5.2. Um projeto complementar seria criar novos manuais de estudo, conhecimento e revalorização da Indoamérica e seu novo projeto, o (neo)Bolivarianismo, com o paradigma de Cibernética Social e Proporcionalismo. Está na hora de despedir-se e deixar para sempre essa neurótica busca da “identidade latina”, esse eterno revisar da “conquista”, essa ridícula alegação de “raça” (raça cósmica, quinta raça, raça pura, raça de bronze, raça de idiotas…). Já é hora de aceitarmos a derrota dos latinos, dos indígenas e dos negros e mestiços da Indoamérica e a vitória dos europeus e anglo-saxãos. É preciso parar de queixar-se da derrota ou de inventar maneiras de camuflar a derrota. É preciso desapegar-se de nossas insignificantes nacionalidades e títulos anacrônicos (hispanos, latinos, lusos ou brasileiros, ibéricos) na era da globalização e identificar-nos por subgrupos mais significativos. Podemos começar por reforçar a cidadania Indoamericana e planetária, ou a cidadania da espécie humana, enquanto as particularidades locais se mantêm como um traço da cidadania planetária ou da espécie humana.

       Para ter uma melhor compreensão do jogo triádico – e não de raças, depois do Projeto Genoma - que se desenrola na Indoamérica, será útil estabelecer comparações de culturas/regiões pelos três cérebros, derivando daí programas de desenvolvimento e estratégias para o jogo triádico da vida e dos povos. Por exemplo, um começo de comparação pode ser assim:

•  Os “anglo-americanos” são melhores no cérebro central, em negócios, gerência e também em violência generalizada; em segundo lugar, embora tenham uma elite científica fenomenal e uma língua muito prática e exata, o povo norte-americano é apenas medianamente racional, científico; em último lugar, têm o cérebro direito afetivo/emocional pobre, ou demasiado “industrializado” pelo cine, a televisão e os centros de diversão de tipo Disneylândia.

•  Os “latinos” em sua grande maioria, incluídos os do Canadá francês e os que vivem nos EUA, têm bom cérebro central só para os níveis de baixo (mais braçais e empregados; e poucos em funções de planejamento, gerência e empresários); têm uma língua menos exata (castelhano e português) e manejam pouco o inglês, pelo que lhes custa ir à universidade e à pós-graduação, e ficam num nível mais baixo de racionalidade e de atitude científica; em compensação têm um cérebro direito bem desenvolvido, muito boas relações, muita criatividade e alegria, muita arte e religiosidade etc.

 

       Neste momento em que estamos começando a Quinta Ameríndia, estamos infestados de blocos, convênios, tratados, grupos, frentes etc. Estão os formados por vizinhança geográfica e de interesses econômicos como o Tratado de Livre Comércio entre EUA, Canadá e México; Centro-América que assinou o CAFTA - seu Tratado de “Livre” Comércio com EUA (nos primeiros 3 meses, 20.000 agricultores centro-americanos foram à falência…); o Bloco Andino; o Pacto Amazônico; o Mercosur. Outros, embora salteados no mapa, se formam por interesses comuns numa dada ecorregião, como no caso do “Grupo dos Três”, formado por México, Colômbia e Venezuela para compartilhar o mercado do Caribe e da América Central. Outro bloco formado por herança histórica é o das ex-colônias britânicas que se aderiram à Commonwealth britânica (exceto EUA). Esteve em formação um bloco por afinidade ideológica socialista, liderado por Cuba... Agora Cuba aderiu ao Bolivarianismo.

       Muitos desses blocos se sobrepõem; alguns países estão em diversos blocos ao mesmo tempo, enredando o jogo triádico.

       A idéia de encaixar todos esses países de cenários tão diferentes e participantes de jogos tão contraditórios sob uma única e mesma coordenação como a OEA, é para disfarçar o verdadeiro jogo triádico indoamericano. Este jogo tem os EUA no papel de subgrupo oficial contra a América Latina e Caribe; tem Cuba, a guerrilha colombiana e, cada vez mais forte, a Venezuela e a Bolívia, no papel de subgrupo antioficial; os demais são oscilantes, liderados pelo Brasil, representante maior dos oscilantes de EUA.

       Quando consideramos só a América do Sul, o jogo se vê assim: está o Brasil como subgrupo oficial, associado aos EUA, mas ideológica e politicamente oscilante da Venezuela; Argentina, alternando-se com Uruguai, uma e outra vez joga no subgrupo antioficial do Brasil, estimulada pelos EUA que tem interesse em inviabilizar o bloco do Mercosul; o Paraguai é oscilante, embora, ao aceitar uma base militar norte-americana quase sobre a tríplice fronteira, também se dá um gostinho de antioficial do Brasil.

       No bloco do NAFTA, os EUA são o subgrupo oficial; México é o antioficial (seria bastante mais se López Obrador tivesse vencido as eleições) e Canadá é o oscilante.

       No Bloco Andino, Colômbia é o subgrupo oficial, Venezuela é o antioficial e os demais são oscilantes. Este bloco, entretanto, está-se dissolvendo, porque Venezuela está liderando a formação do bloco de ALBA, enquanto Colômbia lidera a ALÇA do Bloco da costa pacífica com Equador, Peru e Chile. Chile, alertado por a decomposição do Mercosur, aderiu ao NAFTA.

       No Pacto Amazônico, Brasil é o subgrupo oficial e Peru é o antioficial, com os demais como oscilantes, com uma transição da Bolívia para um novo antioficial do Brasil.

       Quando consideramos o jogo triádico por blocos étnicos temos: os EUA são o subgrupo oficial dos anglos; o Canadá anglófono é o antioficial dos anglos de EUA; e os anglófonos do Caribe e as ex-colônias holandesas e dinamarquesas são oscilantes. No bloco latino temos: Brasil como o subgrupo oficial; México como o antioficial; e os restantes, incluindo os francófonos do Canadá, os francófonos do Caribe e os latinos dos EUA, são oscilantes. No bloco de fala hispânica temos: México como subgrupo oficial e Venezuela (antes era Argentina) como antioficial. Dentro de EUA temos: os anglos como subgrupo oficial, os negros como subgrupo antioficial e os latinos e os demais como oscilantes. Cada bloco e cada lado se pode ir subdividindo sempre, porque o jogo triádico é onipresente no macro cenário, nos cenários intermédios e nos micro. Entre os latinos dos EUA, os chicanos (méxico-americanos) são o subgrupo oficial, os porto-riquenhos são o antioficial e os demais são oscilantes. Por sua vez, os chicanos estão divididos em três subgrupos e os porto-riquenhos também etc.

       Sobram outros jogos triádicos, como os de fronteiras entre países: Argentina-Chile, Bolívia-Chile, Chile-Peru, Peru-Equador, Colômbia-Venezuela, Venezuela- Guiana. Outro jogo é de hegemonia cultural entre o pólo hispânico (oficial) e lusitano-brasileiro (antioficial) que é um prolongamento (como quase todo por aqui) do mesmo jogo europeu entre Espanha e Portugal. Há na Indoamérica, ainda, o jogo dos países "independentes" da Europa e outros dependentes (como Malvinas, territórios franceses, holandeses e ingleses do Caribe) que formam comunidade com suas antigas metrópoles.

       Com o recente tumulto instalado no Show do Jogo Mundial pela dissolução da URSS, as antigas instituições de coordenação internacional (ONU, Vaticano, OEA, CELAM) tornaram-se nitidamente pró-norte-americanas e pró-Primeiro Mundo. Como os órfãos latino-americanos estão correndo atrás de novos tutores, e os antigos colonizadores estão querendo re-instalar suas antigas influências – inventaram, juntos, a Cúpula Ibero-americana (desde Guadalajara, 1991) e outras ridicularias como o movimento do Humanismo Latino de iniciativa de italianos com nostalgia do império romano-italiano.

       Dentro de cada um de nossos artificiais países/colônias, também se dá o jogo triádico (as fronteiras são artifícios para conter os oscilantes e antioficiais, como a cerca de arame da fazenda é um artifício do dono para conter bois e vacas). Até há pouco tempo, esses conflitos eram explicados, pelos dialéticos, como sendo luta de classes; e eram examinados como problema de desordem social ou terrorismo pelos capitalistas monádicos e imperialistas.

       Em Cibernética Social , esses conflitos ou tensionamentos sociais são reinterpretados como jogos triádicos de disputa de satisfatores nas três dimensiones:

•  na vertical, o jogo é dos subgrupos de cima, contra os de baixo e vice-versa, com os do meio como oscilantes, seja no planeta, num país, numa empresa, numa família, num casal, do macro ao micro, em forma recorrente;

•  na horizontal, o jogo é de subgrupos dentro de um mesmo nível, como os três subgrupos de centrais de trabalhadores, os três subgrupos de religiões, os três subgrupos da elite político-econômica, os três subgrupos de intelectuais, em forma recorrente;

•  na transversal, o jogo é entre alguns subgrupos verticais e alguns horizontais salteados, que se juntam para formar coalizões ou alianças temporárias, em forma recorrente. Claro que o conflito maior resulta das relações entre subgrupos verticais, mas isso não pode ser plenamente entendido sem observar suas engrenagens ou redemoinhos menores de sustentação, que são os jogos horizontais e transversais .

 

       Para entender os jogos, não basta dizer que o conflito é de subgrupos; isso é indispensável, mas é muito pouco. É preciso situar, operacionalizar o jogo triádico: Qual é o centro e o raio de alcance de um jogo dado? Onde está o subgrupo oficial, onde o antioficial, onde o oscilante e cada um de seus redemoinhos menores inter-relacionados? Que tipo de recursos/satisfatores de vida se estão disputando? Quantos participam em cada subgrupo, quantos são disponíveis para bandear-se de um subgrupo ao outro? Quanta força (tecnologia, táticas, recursos, determinação) tem cada subgrupo? Por isso ressuscitaram “O Príncipe ” de Maquiavel e “A Arte da Guerra” de Sun Tzu como manuais, até para empresários...

       Cada ecorregião, cada país se move por ciclos, determinados primordialmente pela Dinâmica Prestusuaria (economia). Por isso, a História Econômica da Indoamérica ou de um dado país se apresenta numa seqüência de ciclos (ciclo do ouro, da prata, do pau-brasil, da cana-de-açúcar, do gado, da agricultura, do algodão, da borracha, do café, da industrialização, do petróleo, da droga, da cibernética, da financeirização etc.). No entanto, essa Historia é incompleta porque não menciona/situa os jogos triádicos do contexto e não identifica os personagens/jogadores dos três subgrupos internos e externos. Os manuais têm ocultado o jogo triádico e seus atores porque, ao usar o paradigma monádico ou unilateral, o objetivo é ocultar as tramóias e a depredação tramadas em surdina pelos subgrupos mais altos de um país ou do planeta. Alguém apontou a Europa como o principal assaltante e terrorista do planeta nesses 2000 anos? Alguém apontou o poder sacral como explorador e subjugador do ser humano por terrorismo espiritual em cumplicidade com o poder político-econômico? “Quando os leões aprenderem a escrever, a história das caçadas será diferente”...

       Dentro de um país, há que ver como se dá o jogo triádico entre regiões, cada uma com seus subgrupos oficiais e com suas rivalidades e alianças. No Brasil está o “triângulo das Bermudas” (estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais) como subgrupo oficial colonizador interno; está a região sul como antioficial; e estão a região norte e nordeste como subgrupos oscilantes.

       Na Bolívia está o Departamento de La Paz como oficial; está Santa Cruz como antioficial; e os demais jogam de oscilantes, segundo a conveniência.

       Depois de situar os subgrupos regionais, há que ver a distribuição da população e das ocupações profissionais: a zona urbana banqueira-industrial é a oficial; a periferia marginalizada é antioficial; o resto é oscilante, junto com o meio rural. Depois, vem o jogo entre bairros; entre as dinastias ou quadrilhas do mesmo bairro etc. E assim prossegue a miniaturização e a operacionalização do jogo triádico, na família, no indivíduo, na célula, no átomo, na energia quântica.

       Tudo são relações triangulares e inter-triangulares (rever o provérbio árabe que mostra como o jogo triádico e os subgrupos se recombinam caleidoscopicamente, segundo o jogo e a esfera em que se movem).

       5.3. O jogo triádico entre o projeto (neo)colonizador anglo-americano da ALCA com o projeto (neo)bolivariano libertador da ALBA e do TCP sugere distintos cenários. Alguns podem ser:

•  os atuais blocos da Indoamérica e suas instituições vão desaparecer e outros alinhamentos se darão com a UE ou com o Bloco do Sudeste Asiático (ASEAN) com seu novo Banco de Desenvolvimento Asiático (BDA) e sua nova moeda, o ACU; ou alinhamento com o bloco árabe…

•  os países latino-americanos se alinharão com o projeto (neo)Bolivariano, superando as atuais divisões entre bloco ALCA da costa pacífica e o bloco ALBA da costa atlântica e conseguirão deter/moderar a brutal cobiça anglo-americana; ou se aprofundarão as divisões e o antagonismo com EUA, como nos anos 60 e 70 (socialismo X capitalismo) e este interviria outra vez para salvar o capitalismo e a “democracia” (leia-se: seus interesses).

•  o império anglo-americano vai repetir a história do império romano quando transformou suas colônias e habitantes em partes integrantes do império, vindo a cair por si só;

•  a população méxico-americana, os porto-riquenhos e latinos que já estão nos EUA se organizarão para liderar a pressão que virá de latinos do sul; ou se organizarão para defender-se de novos competidores por postos de trabalho, que chegarão do sul;

•  se o (neo)Bolivarianismo e ALBA/TCP são derrotados, todos os indoamericanos terão que adotar o dólar e terão que ajustar-se ao Americam Way of Life: mais capacitação (cérebro esquerdo) para falar inglês; com nível universitário para poder competir, para mais consumo, para mais riqueza (cérebro central); e em luta contra os valores do cérebro direito (relações familiares, espírito alegre, despreocupado, espírito artístico, religião católica etc.);

•  vai aumentar a competição dos latinos e outros “invasores” de EUA (imigrantes) com a população negra norte-americana por postos de trabalho e por dinheiro para os programas sociais e comunitários nos EUA;

•  a miséria vai aumentar entre os latino-americanos fora de EUA e eles tratarão invadir o primeiro mundo (invasão migratória, cada vez mais vigiada e difícil): EUA, Europa e de qualquer outro pedaço de primeiro mundo que lhes apeteça;

•  haverá que esperar outros 20 anos para que surja um novo subgrupo latino-americano antioficial que seja eficaz frente ao império anglo-americano.

 

       O futuro não vem pré-determinado. O futuro, mais que acontecer por acaso, deixa-se construir. A Quinta Ameríndia, o Bolivarianismo/Socialismo do Século XXI são parte do novo projeto de mundo, de humanidade e de todo o ecossistema da pós-modernidade. O projeto anglo-americano da modernidade esgotou-se: tornou-se enfermador e está levando o planeta e a espécie humana à sua fase terminal.

       Oxalá se encontrem caminhos de mais vida.

 

 

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